O gesto · O corpo · A superfície
Pintar sem pincéis
Pinto directamente com as mãos porque quero que exista a menor distância possível entre aquilo que sinto e aquilo que permanece na tela.

A decisão não nasceu de uma rejeição da técnica. Começou com um sonho recorrente em que pintava dentro do Bruno&Polli’s sem pincéis, espátulas ou ferramentas. Existiam apenas o meu corpo, a tinta e a resistência da superfície. Quando acordei, o sonho pareceu-me menos uma imagem do que uma instrução.
Um pincel pode ser preciso, mas também pode transformar-se num lugar onde nos escondemos. A mão deixa outro tipo de prova. Pressiona, arrasta, hesita, risca e liberta. Cada marca conserva o peso e a velocidade do instante em que foi feita. A palma cobre; as pontas dos dedos interrompem; o lado da mão atravessa uma camada que começava a assentar.
Trabalhar desta forma não significa abandonar a intenção. Antes de pintar, escrevo a atmosfera emocional de cada obra: a sua tensão, as cores, o movimento e o sentimento que deverá deixar. O plano funciona como uma partitura, não como um desenho. Depois do primeiro contacto, permito que o corpo lhe responda.
As pinturas de What the Hands Couldn’t Keep Quiet não são, por isso, decoração espontânea nem representações de acontecimentos concretos. São registos físicos da memória, do controlo, da ruptura, do desejo, da ausência e do regresso. A tela não ilustra o corpo. Guarda a sua prova.
“Queria descobrir o que diria o corpo se a mente deixasse de o corrigir.”Voltar à colecção